Atlântis
Atlântis é o nome da capital do reino de Atlanté, líder da confederação de Ruta e cabeça do Império Atlante.
Do mar, um canal de meio estádio (cem metros) de largura, quinze braças (trinta metros) de profundidade e cinquenta estádios (dez quilômetros) de comprimento estende-se até o braço de mar circular mais exterior da Cidade Proibida, onde se localizam o palácio imperial e os principais órgãos do Estado e é fechada por muralhas revestidas de metal, cujos guardas só permitem passar os portadores de salvo-condutos. Um cidadão comum de Atlântis dificilmente põe os pés ali, a menos que seja convocado a comparecer ou consiga uma audiência com um alto funcionário do Império.
Em torno da Cidade Proibida, ao abrigo de uma possante muralha de pedra, estende-se a Cidade Exterior, centro do comércio e da navegação de todo o Império. Amplas áreas a leste e oeste das muralhas também estão sob a jurisdição da cidade e incluem a Necrópole e os bosques sagrados.
Para os navios vindos de alto-mar ou dos canais da planície, há entradas suficientemente largas para que possam entrar na cidade. Depois, nos obstáculos de terra que separavam os círculos d'água da Cidade Proibida, na altura das pontes, há passagens tais que só um navio possa passar de um círculo para outro, e que foram cobertas com tetos, tão bem que a navegação é subterrânea, pois os parapeitos dos círculos de terra se elevam suficientemente acima do mar. Esses círculos são separados por braços de mar também circulares que rodeiam a Acrópole, o centro político e religioso, sobre os quais há pontes que ligam as moradas imperiais ao exterior.
Índice
Arredores
Ao norte da cidade, estende-se uma vasta planície fértil e cortada por milhares de canais e, para além dela, há altas montanhas. Todo a produção excedente dessas regiões flui para Atlântis ou é exportada através de seus portos, gerando um intenso e permanente trânsito de embarcações de todos os tipos e tamanhos através de seus canais. A leste e oeste, estendem-se reservas florestais de centenas de quilômetros quadrados.
A reserva do lado leste, conhecida como os Bosques do Amor, destina-se a luas de mel, ao lazer e a outros entretenimentos de aristocratas e poderosos mercadores, inclusive a caça. É pontilhada por colinas, luxuosas estalagens, casas de banhos termais, palácios de verão e pavilhões de caça. As praias desse setor são conhecidas como Costa das Sereias, pois esses seres marinhos costumam juntar-se nos recifes e corais próximos para cantar às tardes.
Já a região do lado oeste, conhecida como os Bosques dos Deuses tem caráter sagrado e nela encontram-se cemitérios, monastérios, templos e a Necrópole, o vasto cemitério da capital. Um pouco para além está o Vale dos Imperadores, onde se encontram as tumbas dos Atlas desaparecidos, ao pé da Tríplice Montanha, que domina o horizonte da capital. São três picos contíguos de forma grosseiramente piramidal, o maior dos quais tem mil braças (dois mil metros) de altura e mil e quinhentas braças (três mil metros) de base. Uma antiga tradição afirma que foram construídas pelos deuses com as pedras extraídas durante a construção do Grande Canal. A parte que dá para o mar, formada por altas falésias, é conhecida como Costa Morta, pois encontra-se junto à Necrópole e é pouco frequentada, salvo por ocasionais pescadores e catadores de mariscos.
Cidade Exterior
A cidade exterior tem uma área total de 480 km² e é habitada por mais de seis milhões de pessoas. Até a revolução de 2702, foi tradicionalmente governada por uma mulher da família imperial escolhida pelo Imperador.
Uma muralha circular de pedra começa pelo mar e mantém uma distância de dez quilômetros da maior barreira de água que cerca a Cidade Proibida e forma o maior porto. Fecha-se sobre si mesma na enseada do canal que se abria do lado do mar. Tem oitenta quilômetros de circunferência, cem metros de altura e trinta metros de espessura, e é guardada por vinte mil guerreiros. A passagem no alto da muralha é suficientemente larga para a passagem de elefantes e carros de guerra. Além das duas entradas do canal principal, a muralha tem 16 portões que dão acesso às estradas que levam para os bosques do Amor e dos Deuses. Há também muitas passagens secretas, estreitos túneis através das muralhas conhecidos apenas dos seus guardiões.
A cidade é totalmente coberta de numerosas casas, umas ao lado das outras. O canal e o porto principal regurgitam de navios e mercadores vindos de todos os lugares. A multidão causa aí, dia e noite, um contínuo burburinho de vozes, um tumulto incessante e diverso.
Além do canal principal, há uma densa rede de canais secundários e terciários pelos quais trafegam pequenas embarcações de carga e passageiros, dividindo a cidade em milhares de pequenas ilhas densamente habitadas e ligadas entre si por ruas e pontes.
Os canais secundários tipicamente têm quinze a trinta metros de largura e, assim como o canal principal, são margeados por avenidas suficientemente largas para permitir o desfile de grandes exércitos e o trânsito de elefantes, carroções e carruagens. Esses canais e avenidas delimitam os 50 setores em que se divide a capital, cada um deles administrado por um prefeito eleito pela nobreza local. Dentro dos setores, porém, só é possível deslocar-se a pé, com liteira ou por meio de uma das 250 mil gôndolas que servem a cidade. A rede de canais terciários é extremamente complexa e mesmo gondoleiros experientes podem perder-se quando saem de seus setores. Podem ter de quatro a dez metros de largura e são normalmente margeados por calçadas. São pouco profundos – em geral, um a três metros – e são atravessados por pontes com altura mínima de dois metros e meio.
Os canais terciários freqüentemente delimitam pequenos distritos semi-autônomos, cada um deles com uns poucos milhares de habitantes, uma câmara de conselheiros e um alcaide eleitos pelo povo que respondem aos prefeitos dos respectivos setores. Cada bairro tem seu próprio templo, sua cultura (muitos têm caráter étnico) e suas rivalidades com os bairros vizinhos.
A cidade é servida por uma intrincada rede de esgotos e galerias que passa por baixo dos canais e deságua no mar, a boa distância da costa, conhecida como Sumidouro. Assim, apesar da enorme população, a água dos canais é razoavelmente limpa e abriga muitos peixes. Os esgotos comunicam-se em alguns pontos com uma rede de catacumbas e passagens subterrâneas, nunca devidamente mapeadas e muitas delas secretas ou esquecidas.
Cidade Proibida
A cidade proibida cobre um total de 10 km² (1.000 ha) e divide-se em três partes, nas quais o ingresso é cada vez mais restrito. Cem mil pessoas habitam esse complexo, incluindo trinta mil soldados da guarda imperial.
A maior das barreiras de água, aquela onde penetra o mar, tem largura de três estádios (seiscentos metros) e a de terra que se lhe segue tem igual largura. No segundo círculo, a barreira de água tem dois estádios (quatrocentos metros) de largura e a barreira de terra tem ainda uma largura igual. Mas a barreira de água que rodeia imediatamente a ilha central tem só um estádio (duzentos metros). A ilha, na qual se encontrava o palácio imperial, tem um diâmetro de cinco estádios (um quilômetro).
A ilha, as barreiras e a ponte (que tem a largura de trinta metros) são inteiramente circundadas de muros circulares de pedra revestidos de metal. Puseram torres e portas sobre as pontes em todos os lugares por onde passava o mar.
Tomaram a pedra necessária de sob a periferia da ilha central e de sob as barreiras, no exterior e no interior. Havia da branca, da negra e da vermelha. Ao mesmo tempo que extraíam a pedra, cavaram dentro da ilha duas bacias para navios, com o próprio rochedo como teto. E, das construções, umas são simples, e em outras, misturaram as espécies de pedras e variam as cores, para o prazer dos olhos, e dão-lhes desta maneira uma aparência naturalmente aprazível. O muro que rodeia a barreira mais externa foi revestido, em toda a volta, de cobre, que lhe serviu de reboco. Recobriram de estanho fundido a barreira interior e, quanto àquela que rodeava a própria Acrópole, guarneceram-na de oricalco, que tem reflexos de fogo.
Ilha Anular Exterior
A parte menos inacessível é a ilha anular exterior, protegida pela muralha revestida de cobre, tem uma área de 690 hectares, um terço da qual ocupada por uma larga pista circular gramada destinada a desfiles, exercícios militares e corridas de cavalos. É um picadeiro da largura de um estádio (200 metros), o bastante longo para permitir aos cavalos fazer, na corrida, a volta completa da ilha anular. Em derredor, por toda a extensão, a distâncias regulares, há casernas para quase todo o efetivo da guarda imperial, bem como residências, bibliotecas, palácios administrativos, ginásios, jardins e conveniências para os funcionários civis de médio escalão e templos para muitos deuses. Os arsenais estão plenos de navios de guerra e todos os acessórios necessários para armá-las, em perfeita ordem. Cerca de setenta mil pessoas residem nessa ilha, o que inclui a maior parte da burocracia imperial e da guarda imperial.
Ilha Anular Interior
Em seguida, vem a ilha anular interior, com 230 hectares, protegida pela muralha revestida de estanho. Vivem ali dezoito mil pessoas, incluindo os ministros, os aristocratas mais próximos da coroa e a elite da guarda imperial. as sedes dos ministérios e as residências de funcionários de mais alto escalão, bem como laboratórios e instituições que lidam com segredos de Estado.
Acrópole
São três mil pessoas na ilha central da Acrópole, incluindo a corte, o harém imperial, os sacerdotes, os mil homens mais fiéis da elite da guarda imperial e os servidores mais próximos. A ilha, cercada por uma muralha revestida de oricalco, cobre 80 hectares.
No meio da Acrópole, eleva-se o templo consagrado, nesse mesmo lugar, a Quaxar e a Varjá. O acesso é interditado, e é rodeado de um fecho de ouro. Segundo a lenda, foi lá que de início Quaxar e Varjá conceberam e deram à luz a raça dos dez chefes das dinastias reais. Lá, a cada ano, vêm-se dos dez reinos da ilha de Ruta oferecer a cada um desses deuses os sacrifícios da estação.
O santuário de Varjá tem um comprimento de duzentos metros, largura de cem metros e uma altura proporcionada. Revestiram de prata todo o exterior do santuário, exceto as arestas de espigão, e estas arestas eram de ouro. No interior, a cobertura é toda de marfim e inteiramente ornada de ouro, prata e oricalco. Os muros, as colunas, o pavimento, guarneceram-no de oricalco. Aí colocaram estátuas de ouro: o deus de pé sobre seu carro, atrelado com seis cavalos alados, e era tão grande que o cimo de sua cabeça tocava o teto. Em círculo, em torno dele, as cem nereidas sobre seus delfins. Há também no interior grande quantidade de outras estátuas, oferecidas por particulares. Em torno do santuário, no exterior, erguem-se, em ouro, as efígies de todas as mulheres dos dez reis e de todos os descendentes que engendraram, e numerosas outras grandes estátuas votivas de reis e de particulares, originárias da cidade mesma, ou de países estrangeiros sobre os quais tinham soberania. Por suas dimensões e por seu trabalho, o altar responde a esse esplendor, e o palácio imperial é proporcional à grandeza do império e à riqueza dos ornamentos do santuário.
O palácio imperial tem sido construído e remodelado desde a fundação da cidade. Cada soberano recebeu o palácio de seu predecessor e embelezou-o a seu turno, mais do que já havia sido adornado. Procurou sempre exceder o antecessor, tanto quanto pôde, a tal ponto que, quem quer que veja o palácio é tomado de estupor, diante da grandiosidade e beleza da obra.
Dois mananciais, um de água fria e outro de água quente, ambos de generosa abundância e maravilhosamente adequados para uso, pela amenidade e virtudes de suas águas, abastecem a ilha, dispondo-se em torno deles construções e plantações apropriadas à natureza das águas. Instalam em redor tanques, uns a céu aberto, outros cobertos, destinados aos banhos quentes no inverno: há, separados, os banhos reais e os dos particulares, outros para as mulheres, para os cavalos e para as outras alimárias, cada um com a decoração apropriada. A água daí proveniente, conduzem-na ao bosque sagrado de Varjá. Este bosque, graças à virtude do solo e do clima, compreende árvores de todas as essências, de beleza e altura divinas. Daí, fazem correr a água para as barreiras exteriores por canalizações construídas ao longo das pontes.
Os guerreiros que se distinguem dentre todos por sua fidelidade têm alojamentos no interior da própria Acrópole, perto do palácio imperial.